O casquense Thiago Trentin conquistou o quarto lugar na prova de 42 km da Mountain Do Fim do Mundo, realizada em agosto em Ushuaia, na Terra do Fogo (Argentina). Considerada uma das mais exigentes do circuito sul-americano de corridas de aventura, a competição reúne atletas em trilhas, bosques e montanhas cobertas de neve e gelo, com temperaturas que podem chegar a -17°C.

Thiago é filho de Luciano Antônio Trentin, alfaiate por quase 60 anos na cidade, e de Geni Malfatti Trentin. Passou a infância entre brincadeiras de bolita no terreno baldio da antiga Prefeitura — hoje sede do Fórum — e partidas de futebol na quadra de concreto da Praça da Igreja, até concluir a graduação na UPF. Desde 2010, reside em Passo Fundo, onde atua como especialista em engenharia de software na Livelo, a maior empresa de fidelidade do Brasil.

Casado com a enfermeira Renata Vieira, é pai de Lorenzo, de 7 anos, que já segue os passos do pai no esporte, praticando judô, futebol e correndo ao lado dele sempre que pode. Apesar da vida profissional em outra cidade, Thiago mantém fortes vínculos com Casca, onde vivem amigos, familiares e os irmãos Luciana Trentin e Ronaldo Trentin, conhecido como Cuca, além de parentes na região de Evangelista.
Em entrevista, o atleta relatou sua trajetória no esporte e os desafios enfrentados até a conquista:
JH – Como você começou a correr?
Thiago – Comecei em 2015 por recomendação médica, após um check-up de rotina em que meu coração registrou apenas 32 batimentos por minuto. Fui diagnosticado com uma condição cardíaca que exige prática constante de exercícios físicos. Experimentei academias e outros esportes, mas acabava me machucando ou não me adaptava. Passei a correr a convite de uma amiga e, no início, não conseguia percorrer nem 500 metros sem parar. Com o tempo, ganhei resistência e reduzi 20 kg, melhorando tanto a saúde quanto a qualidade de vida.
JH – O que o motivou a continuar?
Thiago – Participei de diversas corridas de 5 km, mas durante a pandemia comecei a aumentar as distâncias, como uma forma de enfrentar o confinamento. Depois, passei a treinar com o grupo do professor Vinicius Bernardon, o que foi fundamental para evoluir sem lesões.
Até agora disputei cinco maratonas: Porto Alegre (2022), Serra do Rio do Rastro (2022), Buenos Aires (2023), Bento Gonçalves (2024) e Ushuaia (2025). Cada uma tem sua história, mas a prova na Argentina surgiu de forma desafiadora em uma conversa com amigos corredores, motivados pela ideia de competir na neve.
JH – Como você se preparou para encarar esse desafio na Patagônia? Poderia compartilhar também como foi a experiência durante a prova?
Thiago – Essa foi, sem dúvida, a parte mais complexa da prova. Sem o equipamento certo, todo o treinamento teria sido em vão.
O percurso já era desafiador: 42 km em uma estação de esqui chamada Cerro Castor. No trajeto, subiríamos a montanha principal da estação, com quase 900 metros de ganho de altitude.
Com temperaturas podendo chegar a -17 °C, cada peça de roupa precisava ser cuidadosamente escolhida. Estar molhado nessas condições significava o fim da prova e, em casos extremos, risco de congelamento de dedos e orelhas.
A roupa precisava aquecer, permitir transpiração sem encharcar e ser leve o suficiente para a distância. Busquei os seguintes itens em lojas e sites: roupa térmica, meias e luvas de lã de merino, corta-vento hidrorrepelente, touca para baixas temperaturas, mochila de hidratação com garrafas de gel e tênis hidrorepelente com cravos de 5 mm
Foram cerca de 5 meses de preparação, com treinos de mais de 100 km semanais e até 4 horas de duração, buscando terrenos difíceis. Treinei pelo interior de Casca com Márcio Modrak e em Camargo com Ângela Pagnussat, testando desde o vestuário até a alimentação.
A largada foi às 7h30 da manhã, ainda escuro. O dia só amanhece por volta das 9h e anoitece às 16h. Os primeiros 12 km foram iluminados apenas por lanternas e marcações no gelo.
O trajeto foi compactado com máquina para permitir a corrida. Fora da trilha, a neve chegava a 50 cm – um passo errado, e se afundava até o joelho.
Ao amanhecer, chegamos à base da montanha. Restavam 4 km de subida íngreme, compartilhando o espaço com esquiadores de seleções internacionais. O teleférico cruzava o céu levando atletas ao topo. A vista lá de cima era magnífica – tamanha beleza fazia esquecer a dor nas pernas.
A descida foi difícil, com gelo duro e escorregadio por conta do recongelamento da neve. Na segunda metade da prova, atravessamos o vale dos passeios de trenó com cães, geralmente huskies – alguns nos acompanharam no percurso.
A paisagem era uma imensidão branca, e raramente se via outro competidor. De tempos em tempos, encontrávamos barracas com comida e bebida. Alguns copos estavam congelados, mas os alimentos foram essenciais diante do alto gasto energético.
Cruzar a linha de chegada foi a consagração de um desafio superado. Tudo o que eu queria era um lugar aquecido e uma caneca de chocolate quente.






