Por Henrique Bertosso, Diretor da UPF Campus Casca
Em texto recente, refletimos sobre como a carteira assinada, por muito tempo símbolo de estabilidade e conquista, passou a ser associada, por parte da juventude, a uma imagem negativa. Para alguns, o trabalho formal representa rotina exaustiva, falta de liberdade e ausência de sentido. Mas por trás desse incômodo, o que a juventude contemporânea realmente está buscando quando pensa sobre seu futuro profissional?

Estamos diante de uma mudança profunda. Para as novas gerações, o trabalho não é mais apenas um instrumento de sobrevivência ou ascensão social. Ele passou a ser, também uma busca por significado, autonomia e tempo de qualidade. A ideia de “viver para trabalhar” vem sendo substituída pela pergunta: “como posso trabalhar sem deixar de viver?”.
Muitos jovens rejeitam os formatos tradicionais das organizações: hierarquias rígidas, jornadas engessadas, ausência de voz e pouca conexão com seus valores. É crescente o número de estudantes e recém-formados que preferem atuar como freelancers, empreender de forma individual ou buscar outras formas de geração de renda. Isso não representa descompromisso, mas a tentativa legítima de construir uma trajetória profissional mais coerente com seus princípios.
Esse movimento, contudo, carrega armadilhas. O discurso da liberdade total, muitas vezes vinculado ao empreendedorismo de si, pode mascarar realidades duras: jornadas longas, instabilidade financeira e a ausência de proteção social. A ideia de que a autonomia está sempre fora da formalidade é, em muitos casos, ilusória. Sem direitos trabalhistas básicos, como licença, férias, previdência e seguro, o que parece liberdade pode ser, na prática, insegurança e solidão profissional.
O trabalhador desprotegido está mais exposto a riscos, sem amparo em momentos de fragilidade e sem garantias mínimas para planejar o futuro. Sem apoio legal e social, cada imprevisto se transforma em uma crise pessoal. A ausência de segurança financeira, o medo de adoecer sem cobertura ou o envelhecimento sem perspectiva de aposentadoria são experiências reais para milhões de brasileiros que vivem fora da formalidade. Por isso, é urgente superar a falsa ideia de que é preciso escolher entre direitos e liberdade.
Empresas, universidades e o poder público precisam se debruçar sobre esse novo cenário. É possível, e necessário, pensar práticas laborais que combinem proteção com flexibilidade, dignidade com inovação. Não devemos pressionar os jovens a se adaptar a modelos antigos de trabalho, mas sim criar, junto com eles, novas formas de trabalhar que tenham sentido e que também preservem direitos conquistados ao longo do tempo.
O trabalho do futuro exige mais do que tecnologia: exige compromisso com o bem-estar, com a justiça social e com a construção de vínculos mais humanos. Os jovens não estão rejeitando o trabalho. Eles estão nos convidando a reinventá-lo.





