08, mar, 2026
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Quando ter carteira assinada virou ofensa: o que os jovens estão nos dizendo?

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Por Henrique Bertosso, Diretor da Universidade de Passo Fundo – Campus Casca

Nos últimos meses, algumas reportagens chamaram atenção para um fenômeno curioso: jovens e adolescentes têm associado o trabalho com carteira assinada a algo negativo e até ofensivo. Em matéria publicada pelo portal G1, uma influenciadora relatou que sua filha, de apenas 12 anos, disse que “ser CLT” significa “andar de ônibus todo dia, chefe mandando, ser pobre”. A fala, que circulou amplamente nas redes sociais, é apenas um dos exemplos de como o emprego formal passou a carregar, entre parte da juventude, uma conotação de fracasso ou falta de liberdade.

Essa mudança de percepção é significativa. Por décadas, ter a carteira assinada foi um sinal de estabilidade, respeito social e acesso a direitos básicos: férias, 13º salário, aposentadoria, licença-maternidade, entre outros. O emprego formal representava, para muitas famílias brasileiras, uma conquista a ser celebrada. Hoje, no entanto, ele aparece nas conversas escolares e nas redes digitais como sinônimo de rotina exaustiva, obediência cega e vida limitada.

É importante compreender que essa rejeição não se volta necessariamente contra os direitos trabalhistas. O incômodo está, muitas vezes, na forma como o trabalho é organizado: horários sem flexibilidade, ambientes de trabalho hierarquizados, pouca autonomia e baixa valorização. Ao criticarem o modelo tradicional, os jovens estão também expressando o desejo por formas mais significativas de inserção no mundo profissional, mais compatíveis com seus valores, suas linguagens e sua relação com o tempo.

Por outro lado, transformar a carteira assinada em objeto de deboche é também um risco. Não podemos permitir que conquistas fundamentais sejam descartadas com base em percepções superficiais. A informalidade pode parecer, à primeira vista, mais livre e mais leve. Mas ela também carrega consigo a ausência de garantias em momentos de vulnerabilidade, como doenças, acidentes, desemprego ou envelhecimento. Ao abrir mão da proteção social oferecida pelo trabalho formal, os jovens podem estar se expondo a incertezas que, muitas vezes, só se revelam com o tempo.

Ouvir os jovens é um exercício necessário para pensar o futuro do trabalho. E talvez o primeiro passo seja compreender que a crítica à CLT, mesmo disfarçada de piada, nos convida a um debate muito mais profundo sobre dignidade, liberdade e justiça no mundo do trabalho. Ao ridicularizar o emprego formal, essa geração expressa não apenas insatisfação com rotinas rígidas, mas também uma demanda por pertencimento, criatividade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Ignorar esse movimento seria negligenciar uma oportunidade valiosa de reconstruir nossas relações laborais em bases mais humanas.

Em vez de romantizar a informalidade ou reforçar estruturas ultrapassadas, é tempo de buscar alternativas que conciliem os direitos historicamente conquistados com as novas formas de trabalhar, produzir e viver. Afinal, o futuro do trabalho não será construído apenas com leis, mas com escuta, diálogo e inovação social.

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