Por Henrique Bertosso, Diretor da Universidade de Passo Fundo – Campus Casca
O Brasil está envelhecendo. Essa afirmação já se tornou recorrente em estudos populacionais, discursos acadêmicos e mesmo nas manchetes dos jornais. Mas o que muitas vezes se esquece é que, mais do que uma tendência demográfica, o envelhecimento da população exige uma transformação cultural profunda. Não basta preparar o sistema de saúde, ajustar as políticas públicas ou ampliar a rede de cuidados, é preciso preparar as pessoas. E essa preparação começa na educação.

Educar para o envelhecimento é, antes de tudo, reconhecer o envelhecimento como um processo, e não apenas como uma fase da vida. Envelhece-se desde o nascimento. Cada escolha de hoje repercute no amanhã. A forma como nos relacionamos com o próprio corpo, com o tempo, com as outras gerações e com a ideia de futuro molda a velhice que teremos. No entanto, o que se vê com frequência é uma sociedade que nega a velhice. Por isso, promover uma educação para o envelhecimento é também uma estratégia para combater o etarismo, o preconceito que discrimina pessoas com base na idade, ainda tão presente nas falas cotidianas, nos ambientes de trabalho e até nas relações familiares.
Trata-se de uma educação que não se restringe ao conteúdo formal da escola, embora deva, sim, estar presente nos currículos desde o ensino básico. Vai além: é um projeto de formação humana, que deve envolver a família, as comunidades, as instituições de ensino e os meios de comunicação. O que ensinamos às crianças e aos jovens sobre a velhice? Que imagens eles constroem das pessoas idosas? A quem escutam quando pensam no futuro? A resposta a essas perguntas ajuda a compreender por que tantos adultos, ao se depararem com a própria velhice ou a de seus familiares, sentem medo, despreparo ou até repulsa. Falta repertório emocional e cultural para lidar com esse tempo da vida.
É fundamental que os jovens compreendam que envelhecer não é um problema individual, mas um fenômeno coletivo, social e político. Quando os estudantes conhecem a realidade da população idosa, seus desafios e suas potências, ampliam sua visão sobre o mundo e sobre si mesmos. Aprendem a importância da solidariedade intergeracional, da escuta respeitosa e da valorização da experiência de vida. É na troca entre gerações que se constrói uma cultura do cuidado e do reconhecimento mútuo.
Algumas escolas já têm desenvolvido projetos que aproximam crianças e idosos em atividades conjuntas, como oficinas de memória, contação de histórias, hortas comunitárias ou vivências de saberes. São experiências que deixam marcas profundas e positivas nos dois lados. Do mesmo modo, universidades que abrem suas portas para cursos voltados a pessoas idosas, ou que criam espaços de debate intergeracional, e contribuem para uma formação cidadã mais completa. A educação ao longo da vida, conceito cada vez mais defendido por organismos internacionais, como a Unesco, propõe justamente isso: que a aprendizagem seja contínua e adaptada às diferentes etapas da existência.
Também é papel dos meios de comunicação oferecer representações mais plurais e reais das pessoas idosas. É preciso ir além da imagem da fragilidade e da dependência, reconhecendo a presença ativa dos idosos na vida comunitária, na economia e nas decisões familiares. Muitos deles cuidam de netos, lideram associações, empreendem, estudam e produzem conhecimento. Invisibilizar essas trajetórias é empobrecer nossa compreensão do envelhecimento.
Por fim, é preciso dizer com clareza: envelhecer bem não depende apenas da genética ou do acaso, mas de uma rede de fatores que pode, e deve ser construída com antecedência. A educação para o envelhecimento não garante apenas uma velhice melhor. Ela transforma a forma como vivemos cada fase da vida, cultivando desde cedo a autonomia, o autocuidado, o respeito e a responsabilidade compartilhada.
Falar sobre envelhecimento com os jovens não é antecipar preocupações, mas ampliar horizontes. É ensinar que a vida tem muitos tempos, e que todos eles merecem ser vividos com dignidade. Quando educamos para o envelhecimento, educamos para a empatia, para o futuro e para a construção de uma sociedade mais justa para todas as idades.





